João Lopes, o autor do hino não oficial do Paraná 25/05/2022 - 10:26

Beto Pacheco

Falar sobre identidade é algo delicado, pois quando você olha para o outro sob a sua ótica, o quanto de si está enxergando nele? Em se tratando de processo culturais, então, fronteira arriscada. Porém, convenhamos, para você aí que me lê e que, como eu, é natural do estado anfitrião da Região Sul, a música de João Lopes, nosso homenageado de hoje, vem carregada de reconheceres. Afinal, erga a mão com um copo de quentão aquele que, em sendo registrado por cá, nunca se intitulou “Bicho do Paraná”.

Capa do Disco Bicho do Paraná, de João Lopes

O compositor, que nasceu há exatos 72 anos na pequena Califórnia, a cidade (quando ainda nem tinha sido alçada à categoria de município), ficou conhecido nacionalmente por meio de uma campanha publicitária do já falecido Banco Bamerindus (também paranaense) que buscava exaltar personalidades conterrâneas que haviam se destacado em alguma área, fossem atores, esportistas, etc. A campanha (retomada pela RPC em 2021) aproveitou o título da já conhecida internamente “Bicho do Paraná”, presente no álbum inaugural do músico, de 1981, intitulado “João Lopes” (capa à esq.) e lançado pela gravadora Continental. Como a própria letra deixa explícita, foi composta pelo artista após uma primeira passagem pelo Rio de Janeiro, em busca de sucesso, não ter surtido os frutos desejados. À época, ele ainda não tinha um disco lançado e, por não conseguir comercializar seus shows, o produtor colocava a culpa na aparência de João. Pedia que ele a mudasse, cortando os longos cabelos e raspando a barba. Olhando para trás, talvez não combinasse mesmo aquele rock rural, à moda do pinhão, com a brisa praiana cosmopolita. 

 

O fato é que, por sua força rítmica e tom orgulhoso sobre o “ser paranaense”, “Bicho do Paraná” se tornou uma espécie de “hino não oficial” do estado. Eu mesmo já a vi ser entoada em abertura de eventos no palácio Iguaçu, sede do Executivo Estadual. Contudo, um legado solitário, que, infelizmente, não teve força para puxar o restante da sua obra na mesma toada. E isso já era avaliado pelo jornalista Aramis Millarch em artigo publicado no jornal O Estado do Paraná em 27 de setembro de 1986: “[...] João Lopes, mesmo com um elepê gravado na Continental - e hoje tendo a simpatia do grupo Bamerindus - ainda continua restrito a pequenos círculos [...]”. 

Mas, independente das cifras, João Lopes seguiu (sobre)vivendo de sua música, um verdadeiro artista, lançando na sequência os álbuns “Pé Vermelho” (1988), “O Homem e a Natureza” (1991), “Interiores” (1996), “Bicho do Paraná Acústico” (2005) e “Vamos Cantar” (2013). Basta ver os títulos para avaliar que seguiu fiel até o fim às suas raízes. Postura estoica difícil de se encontrar. 

Ao longo dos anos, após ter tido uma passagem como plantador de feijão em Sengés (informação também dada por Millarch, no mesmo artigo), João foi figura presente na cena autoral curitibana, onde passou a morar e onde morreu, há dois anos (18/05/2020), após ter enfrentado um câncer de pulmão. Mas rememoremos o acender dos holofotes em vez de seu apagar. Sua primeira aparição em um palco foi em 1978, a convite do excepcional vocalista e compositor Ivo Rodrigues, da banda curitibana Blindagem. Cantou em praticamente todos os teatros da capital, circulou pelos mesmos bares que Paulo Leminski e frequentemente era confundido pelas ruas com outro João indefectível da música do Paraná: João Gilberto Tatára.

“Eu saía de casa para comprar pão e alguém sempre gritava do outro lado da rua, ‘e aí, João Lopes, bem?'’, confidenciou-me Tatára em uma daquelas noites áureas de bate-papo em seu bar. E ele dizia que a recíproca era verdadeira com Lopes. Perguntei a Tatára como ele se portava em situações como esta e ele, com um sorriso sob a barba branca, relembrou: “Ora, eu acenava para o interlocutor e cantava de cá, ‘Eu não sou gato de Ipanema, sou Bicho do Paraná”.